Em
segundo lugar, é preciso lembrar também que a amostragem
de alunos por escola que fazem o Enem não segue padrão
nenhum. Isso significa, na prática, que a média
de escolas com menos de 200 alunos é equiparada à
de outras com mais de mil, por exemplo.
Significa também que apenas bons alunos de algumas escolas
podem prestar o exame e, desse modo, colocar a escola nos primeiros
lugares. E devo dizer que, para algumas escolas, vale tudo –
tudo mesmo – para alcançar os primeiros lugares e,
desse modo, ter visibilidade e procura de alunos.
Conversei com um aluno que não prestou o Enem porque a
escola que ele frequenta – fora de São Paulo –
ofereceu um churrasco para alguns alunos no mesmo dia do exame
e ele preferiu comparecer a esse evento, é claro. Que incrível
coincidência, não é mesmo?
Em terceiro lugar, esse ranking provoca a falsa ideia nos pais
de que a responsabilidade de oferecer uma boa educação
escolar aos filhos é deles, ou seja: quem pode pagar altos
valores de mensalidade, consegue vagas nas escolas colocadas nos
primeiros lugares e reside nos bairros mais próximos a
essas escolas, entre outros fatores, consegue oferecer boa formação
escolar ao filho. Falso: a responsabilidade de dar educação
escolar de qualidade às crianças e aos jovens é
das escolas. De todas elas. Não é dos pais, de suas
escolhas e de suas possibilidades na vida.
O ranking to Enem – aliás, de qualquer tipo –
é um bom negócio para algumas poucas escolas e sempre
será assim porque sempre teremos apenas 20 nos primeiros
lugares, um bom negócio para a mídia, um bom negócio
para o ensino privado. E, enquanto apostarmos no ensino privado
e não cobrarmos um bom ensino público frequentado
pela maioria de nossos estudantes, continuaremos a ter problemas
em educação e, consequentemente, em outras áreas
em curto e médio prazo.
O ranking não é bom para os alunos, muitos deles
podem cursar seu ensino médio com sentimento de derrota
antecipada -, não serve para a melhoria de qualidade da
educação em nosso país, não é
uma boa referência para os pais.
Por que insistimos tanto em usar o ranking, mesmo? Ah! Ficamos
apegados à ideia de vencedores e campeões. Pena
que isso não valha nada para a maioria que vive a vida
como ela de fato é.
Rosely
Sayão é psicóloga e autora de “Como
educar meu filho”. (ed. Paulinas)
Folha de S. Paulo, Dom. 13/9/2009